INTRODUÇÃO: O QUE É CULTURA DE PAZ?

  Cultura de Paz constitui o comprometimento de possibilitar e vivenciar o respeito à vida e à dignidade de cada pessoa sem discriminação ou preconceito, além de desaprovar qualquer manifestação de violência, exclusão, injustiça e opressão, bem como fortalecer a diversidade cultural e a liberdade de expressão, contribuindo para o desenvolvimento da comunidade.
  Dotar as crianças e os adultos de uma compreensão dos princípios e do respeito pela liberdade, justiça, democracia, direitos humanos, tolerância, igualdade e solidariedade envolve a criação de uma Cultura de Paz. Pressupõe uma rejeição, individual e coletiva, de atos violentos que têm sido parte integrante de qualquer sociedade, em seus mais variados contextos. A Cultura de Paz pode ser uma resposta a várias tentativas de tratados de paz, no entanto, as soluções devem vir de dentro da sociedade e não impostas externamente.
  Ressalta-se que o conceito de paz pode ser discutido no seu sentido negativo ou vazio, como por exemplo um estado de não-guerra, ausência de conflito, passividade, enfim, um sentido difícil de se tornar palpável e preciso. Em sua acepção positiva, a ideia de paz não é o contrário de guerra, mas sim a defesa da não-violência na resolução de conflitos e a valorização de comunicações passivas e democráticas.
  Promover uma Cultura de Paz implica não só falar dos problemas, mas de uma gestão de conflitos. As práticas restaurativas têm sido grandes colaboradoras nesse sentido, reconstruindo a paz e a confiança entre as pessoas. É necessário não só falar da violência e de como ela prejudica a sociedade, mas o discurso deve ser impregnado principalmente de conceitos que relembrem os valores humanos que asseveram a paz. A violência já está bastante denunciada, a urgência no momento é convocar a presença da paz em todas as relações humanas, entre as nações, entre os povos.

QUAL A SUA HISTÓRIA?

  Existem algumas datas que marcam na linha histórica o esforço do mundo pela paz. Veja:
1899 e 1907 Haia, Países Baixos
Conferências ou Convenções da Haia, cidade dos Países Baixos: junto às Convenções de Genebra, configuram os primeiros tratados internacionais sobre leis e crimes de guerra. Estabeleceram-se na Primeira e na Segunda Conferências de Paz. Imagem:
Primeira Convenção de Haia
, 1899 (wikipedia.org Imagem )
1919 Versalhes, França
Criação da Sociedade das Nações, também conhecida como Liga das Nações, uma organização internacional, na qual as potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial se reuniram para negociar um acordo de paz. No mesmo ano, foi assinado o Tratado de Versalhes. Sua última reunião ocorreu em abril de 1946.
1945 Londres, Inglaterra
Após a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de garantir a paz por meio da cooperação intelectual entre as nações, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) foi criada. A Representação da UNESCO no Brasil foi estabelecida em 1964 e seu Escritório, em Brasília, iniciou as atividades em 1972, tendo como prioridades a defesa de uma educação de qualidade para todos e a promoção do desenvolvimento humano e social.
1994 San Salvador, El Salvador
Durante o primeiro Fórum Internacional sobre a Cultura de Paz, realizado em San Salvador, Federico Mayor lançou o debate internacional sobre o estabelecimento de um direito da paz, esboçado na Declaração de Viena (1993), na qual foi afirmado que direitos humanos, democracia e desenvolvimento são interdependentes e reforçam-se mutuamente.
1995 Paris, França
Os Estados-Membros da UNESCO decidiram que a Organização deveria unir esforços para o estabelecimento de uma Cultura de Paz. Na estrutura da Estratégia de Médio Prazo (1996-2001), estabeleceu-se o Rumo à Cultura de Paz, um projeto transdisciplinar. No contexto desse projeto, ONGs, associações, coletividades, jovens e adultos, redes de jornalistas, rádios comunitárias e líderes religiosos de todo o mundo trabalham a favor da paz, da não-violência e da tolerância, ativamente empenhados em promover a disseminação da Cultura de Paz.
1999
A Unesco deu início oficialmente à Cultura de Paz, empenhando-se principalmente em combater possíveis situações ameaçadoras à segurança e à paz. Na Resolução 53/243 de 6 de outubro de 1999, o mundo conheceu a Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz da Organização das Nações Unidas. O documento que reconhece a paz não somente como a ausência de conflito, mas um processo participativo que promova o diálogo na resolução dos conflitos com base na compreensão e na cooperação.
2000
Foi o início para impulsionar o Movimento Internacional por uma Cultura de Paz e Não-violência, assim como foi o Ano Internacional para a Cultura de Paz. Foi neste momento que as Nações Unidas iniciaram um deslocamento global para a cultura de paz criando um acordo mundial que unia todos os movimentos existentes. Esse movimento abriu mais espaço para discussão e vem gerando frutos desde a Década Internacional pela Cultura de Paz e Não-Violência para as Crianças do Mundo (2001-2010).
2001 Durban, África do Sul
A Conferência de Durban, também conhecida como a Terceira Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, foi a primeira Conferência patrocinada pela ONU. Realizada em 31 de agosto e 8 de setembro de 2001 na cidade de Durban, na África do Sul, tratou de várias questões polêmicas e complexas, como, por exemplo, a compensação para a África devido ao comércio de escravos negros durante o período colonial e a atitude relacionada à política de Israel e os Palestinos. Os conteúdos do relatório final elaborado pela conferência eram fortemente debatidos nessas áreas. A Conferência terminou alguns dias antes dos ataques de 11 de setembro de 2001 e foi completamente ofuscada na mídia, afetando significativamente as relações internacionais e políticas.

COMO FUNCIONA A CULTURA DA PAZ?


  A Cultura da Paz existe como um movimento desde a fundação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 1945, como apresentado no quadro. No entanto, esse termo só foi utilizado oficialmente em 1989 devido à Declaração de Yamoussoukro, durante a Conferência Internacional sobre a Paz na Mente dos Homens na Costa do Marfim. Como já abordado, no ano de 1995, a UNESCO adotou a Cultura da Paz como um de seus projetos.
  Desde 1999, ano que foi finalmente oficializado pela UNESCO, o movimento da Cultura de Paz vem lutando por meio da conscientização, da educação e da prevenção contra quaisquer ameaças à paz e a segurança, como: intolerância, discriminação, degradação do ambiente, violação dos direitos humanos e pobreza extrema. Essa ideia é sintetizada na definição de Cultura de Paz pela Organização das Nações Unidas, que a entende como “um conjunto de valores, atitudes, modos de comportamento e de vida que rejeitam a violência, e que apostam no diálogo e na negociação para prevenir e solucionar conflitos, agindo sobre suas causas”. Segundo o ex-Diretor da Unidade para o Ano Internacional da Cultura da Paz, David Adams, a Cultura de Paz tem 8 pilares como base principal, seriam eles:


  1. Educação para uma Cultura de Paz;
  2. Tolerância e Solidariedade;
  3. Participação Democrática;
  4. Livre fluxo de Informações;
  5. Desarmamento;
  6. Direitos Humanos;
  7. Desenvolvimento Sustentável;
  8. Igualdade entre gêneros.


  Entretanto, mesmo com os valores e as tentativas desse projeto, a juventude ainda sofre com problemas ambientais, políticos e sociais que se desenvolveram com os desdobramentos do sistema capitalista em nosso mundo. Infelizmente, situações que envolvem ganância, crimes, discriminação, opressão e bullying ainda prosperam.
  Os jovens do século XXI ainda são as vítimas potenciais do crime e de atitudes destrutivas. Esse contexto nos mostra como os jovens estão sendo moldados em nossa sociedade, cercados por violência e injustiça, tendo que acarretar com todos os erros das gerações passadas e sendo vistos como o “futuro do país”, capazes de transformar esses padrões que promovem o ódio e a guerra no mundo. No entanto, os dados sobre a violência são alarmantes no cenário nacional. Segundo informações do Atlas da Violência 2019, do Instituto IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), só em 2017 foram 65.602 homicídios no Brasil; desses, 35.783 são de jovens assassinados, mostrando um aumento de 6,7% em relação a 2016. Além disso, 75,5% das vítimas de homicídio eram negras, demonstrando que, em relação a 2007, houve um crescimento de 33,1%. Não é em vão que a OMS já declarava no Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, de 2002, que a violência é um dos maiores problemas mundiais de saúde pública e, preocupada em evitar os problemas de saúde e expandir uma melhor assistência e segurança para populações inteiras, é necessária uma união de esforços para a prevenção desse problema e de suas consequências.
  A proposta da Cultura de Paz busca alternativas e soluções para essas questões que afligem a humanidade como um todo, para que tudo possa ser preservado e respeitado. Essa problemática é uma das mais difíceis para a construção de uma cultura da paz. Como já explicitado, o ano 2000 foi o ponto crucial para a grande mobilização, o Ano Internacional para a Cultura de Paz. A partir disso, as Nações Unidas iniciaram um movimento global, chamado “grande aliança”, que unia todos os movimentos existentes que já trabalhavam esse assunto. O momento representou uma oportunidade para que todos juntos pudessem trabalhar as possibilidades de transformar o mundo em um lugar melhor, sem desconfiança, sem competição e uso abusivo do poder.
  Nesse sentido, muitas ONG’s e instituições espalhadas pelo mundo buscam em seus trabalhos promover a Cultura de Paz. A organização Viva Rio, fundada em 1993, com sede na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, é uma empresa social que instiga paz, inclusão e justiça com projetos inovadores em áreas marcadas pela pobreza e pela violência. A organização tem como objetivo a construção da paz, por meio da garantia de direitos, da equidade racial e de gênero, e da ampliação da voz das minorias e dos territórios marginalizados, como as periferias e as favelas.
  Além disso, a organização atua com projetos na área da saúde e assistência social; na qualificação social e profissional do jovem e sua inserção no mercado de trabalho; e na área socioambiental. Destacam-se também os projetos ligados à segurança, que influenciam estruturas políticas e administrativas para assegurar os direitos humanos e estimular uma cultura de paz. Esses projetos envolvem o atendimento a vítimas de violência, a integração de refugiados na sociedade, o apoio ao desarmamento, o incentivo a uma política de drogas mais realista e eficiente, bem como a defesa do policiamento de proximidade, com a capacitação de policiais militares em mediação de conflitos, direitos humanos e prática policial cidadã.

CULTURA DE PAZ, JUVENTUDE E EDUCAÇÃO


  A Cultura de Paz visa espalhar a igualdade e o respeito nas relações interpessoais. Com isso, ela se manifesta na educação quando se é ensinado sobre tolerância, empatia e amor. Ser ensinado desde a infância a respeitar o outro ajuda na formação de caráter do indivíduo, o qual repudiará a agressão e a irracionalidade, dando preferência a atitudes mais pacíficas.
  O assunto é tão relevante que a BNCC (Base Nacional Curricular Comum) aborda as competências gerais, tratadas de forma transdisciplinar, presentes em todas as áreas do conhecimento e etapas da educação. Trata-se da mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores pelo estudante para lidar com as atividades cotidianas, com as demandas do mundo do trabalho e para exercitar a cidadania. A competência 9 traz especificamente a prática da empatia e da cooperação, veja: “Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, suas identidades, suas culturas e suas potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.”
  Essa competência diz respeito ao desenvolvimento social da criança e do jovem, desenvolvendo a solidariedade, a compreensão, o diálogo e a colaboração com todos, respeitando as diversidades. A competência 9 relaciona-se à prática da cultura de paz, uma vez que promove a alteridade, a valorização das diferenças, o acolhimento, a colaboração e a mediação de conflitos.

REFERÊNCIAS

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Cultura de paz e ações sócio-educativas: desafios para a escola contemporânea – Scielo Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-85572002000100013 Acesso em set/2020

vii. a unesco e a cultura de paz – Comitepaz Disponível em: http://www.comitepaz.org.br/a_unesco_e_a_c.htm Acesso em set/2020

Convenções da Haia (1899 e 1907) – Wikipédia Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Conven%C3%A7%C3%B5es_da_Haia_(1899_e_1907) Acesso em set/2020

As Nações Unidas no Brasil –Brasil Disponível em: https://brasil.un.org/ Acesso em set/2020

Unesco – Portal Disponível em: http://portal.mec.gov.br/encceja-2/480-gabinete-do-ministro-1578890832/assessoria-internacional-1377578466/20747-unesco Acesso em set/2020

Sociedade das Nações – Wikipédia Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociedade_das_Na%C3%A7%C3%B5es Acesso em set/2020

Cultura de Paz- Infojovem Disponível em: https://www.infojovem.org.br/infopedia/descubra-e-aprenda/cultura-de-paz/ Acesso em set/2020

A Década Internacional de uma Cultura de Paz e Não Violência para as Crianças do Mundo é um dos mais bem-sucedidos programa – PDF Disponível em: http://www.comitepaz.org.br/download/Guia%20de%20Cultura%20de%20Paz%20pr%F3logo.pdf Acesso em set/2020

Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz – Comitepaz Disponível em: http://www.comitepaz.org.br/dec_prog_1.htm Acesso em set/2020

Cultura de Paz, Meio Ambiente e Cyberativismo – Blogspoot Disponível em: http://cultura-de-paz.blogspot.com/2006/10/o-que-cultura-de-paz.html Acesso em set/2020

David Adams – Comitepaz Disponível em: http://comitepaz.org.br/David_Adams.htm Acesso em set/2020

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Relatório mundial sobre violência e saúde – Portal Disponível em: https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2019/04/14142032-relatorio-mundial-sobre-violencia-e-saude.pdf Acesso em set/2020

Grafico ok indd – Portal Disponível em: http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/06/Atlas_2019_infografico_FINAL.pdf Acesso em set/2020

Viva Rio – vivario Disponível em: http://vivario.org.br/ Acesso em set/2020

O que é a competência Empatia e Cooperação – Novaescola Disponível em: https://novaescola.org.br/bncc/conteudo/13/competencia-9-empatia-e-cooperacao Acesso em set/2020

40ª Sessão da Conferência Geral – 12-27 de novembro de 2019 – Unesco Disponível em: https://en.unesco.org/generalconference/40/ejournal/21nov Acesso em set/2020

David Adams – Wikipédia Disponível em: https://wikimili.com/en/David_Adams_(peace_activist) Acesso em set/2020

Cultura de Paz – Slideshare Disponível em: https://pt.slideshare.net/Guaraciara/cultura-de-paz-30868113 Acesso em set/2020

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